segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Recife Sagrado: Basílica de Nossa Senhora da Penha

Você já parou pra pensar como era sua cidade 200 ou 300 anos atrás? Talvez ela nem existisse ou fosse no máximo uma vila. O que você acha de exercitar a imaginação visitando alguns lugares do Recife que mudaram pouco ou quase nada nos últimos séculos? Gostou da ideia?



Então vem com a gente conhecer as igrejas que fazem parte do projeto RECIFE SAGRADO. Ele foi criado pela Prefeitura do Cidade do Recife com o intuito de pôr estudantes de história, turismo ou arquitetura à disposição para nos mostrar o que cada igreja tem de melhor. 

Vamos começar nosso passeio visitando uma das jóias da capital pernambucana: a Basílica de Nossa Senhora da Penha.

BORA PRA LÁ COMIGO? 






O Projeto RECIFE SAGRADO contempla seis igrejas, o que é muito pouco se considerarmos a quantidade de templos religiosos do Recife. Isso sem levar em conta as igrejas da vizinha Olinda. A boa notícia é que a Prefeitura do Recife está avaliando a expansão do projeto para mais templos, inclusive de outras religiões. É torcer e aguardar para ver. 


Roteiro


Se você é daqueles que não gostam de caminhar, infelizmente este roteiro foi elaborado para ser feito a pé. Você pode 
até percorrê-lo de carro, mas não vai ser fácil estacionar nas proximidades. Se for de táxi, alerto que os trechos são muito curtos e o custo/benefício é ruim. A possibilidade de ir de ônibus é pior ainda.

Nosso passeio começa no histórico bairro de São José. Em seguida, faremos uma caminhada de menos de 2 Km parando em cada igreja até chegar ao lugar onde a capital pernambucana nasceu: o Bairro do Recife, ou melhor, o Recife Antigo de todos os recifenses.

Ao final do roteiro teremos visitado todas as igrejas do projeto: Basílica de Nossa Senhora da PenhaBasílica de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Santa Tereza D'Ávila, Nossa Senhora do Rosário dos PretosCapela Dourada e Igreja da Madre de Deus


 

Basílica de Nossa Senhora da Penha

A região onde fica a Basílica da Penha não é das mais bonitas do Recife, muito pelo contrário. Ela se localiza na Praça Dom Vital, por trás do Mercado de São José. Estamos no limite entre os bairros de São José e Santo Antônio, bem na principal região de comércio popular da capital pernambucana. Este é o lugar certo pra quem não se importa com muvuca e gosta comprar produtos xing ling e outras bugingangas.


Demorou cerca de 12 anos para que a construção fosse finalizada (entre 1870 e 1882). Podemos dizer que foi até pouco tempo para os padrões da época. A basílica que se vê hoje é a terceira igreja construída no local. 

Basílica da Penha pertence à ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Eles tiveram uma participação muito importante na história do estado, como por exemplo na expulsão dos holandeses. Eles moram no convento anexo à Basílica.

Um dos fatores que reforçam a importância do lugar é porque o Recife possui apenas três basílicas (as outras são a do Carmo e a do Sagrado Coração de Jesus). Não é fácil uma igreja se tornar basílica, pois ela precisa atender a uma série de exigências, como possuir relíquias de pelo menos um santo e ter uma grande influência espiritual na região. Só o Papa pode elevar uma igreja à categoria de basílica. 


Outro fator que reforça a importância da Basílica da Penha é o seu estilo arquitetônico. Ela é a única igreja neoclássica em toda a cidade. Provavelmente você sabe que o Recife está repleto de igrejas antigas, mas talvez não tenha se dado conta que todas as demais são barrocas.



Antes de conhecê-la por dentro, vamos dar uma olhadinha com mais atenção para as passagens bíblicas retratadas nos entalhes de madeira das portas. Esta é apenas uma das obras do artista italiano Valentino Basarel que encontraremos na basílica.


Agora que entramos, siga pelo lado esquerdo e observe com mais atenção o altar em homenagem a São Urbano. Lembra que dissemos que para uma igreja se tornar basílica precisa possuir relíquias de um santo? Pois lá estão elas. São Urbano foi um dos apóstolos citados no Novo Testamento. Ele foi considerado mártir devido à perseguição sofrida por pregar a palavra de Cristo. 



Outro detalhe: você percebeu que o desenho desse altar não combina com os demais? Isso acontece porque ele é o único altar barroco de toda a basílica. Confesso que até visitar a Basílica da Penha eu não sabia da existência do "barroco pernambucano" e que ele era diferente do resto do Brasil por retratar figuras da fauna e da flora da nossa região, como por exemplo conchas do mar.

Vamos dar uma olhadinha agora na nave central da basílica. Ela foi construída com colunas de mármore provenientes da região de Carrara, na Itália. Há um fato curioso em relação ao transporte das colunas: elas tiveram de retornar à Itália para serem cortadas (veja as marcas), pois seu peso não pode ser carregado pelos escravos. Observe como são belos os acabamentos do topo das colunas. Esse rebuscamento é típico do estilo coríntio, outro detalhe precioso da Basílica da Penha.

Apesar da aparência, as paredes não são de mármore. Basta por a mão em uma das colunas e nas paredes para perceber a diferença de temperatura. Qual você achou mais frio?


Passando para o lado direito da basílica, podemos observar primeiramente o altar de São Félix. Lembra que dissemos que era necessário que uma igreja tivesse grande influência religiosa na região para se tornar basílica? A Basílica da Penha realiza toda sexta-feira a tradicional Bênção de São FélixEla consiste na unção dos fieis com o óleo e água benta (o óleo é abençoado pelos frades exclusivamente no dia de São Félix). A cerimônia é realizada há mais de 70 anos pelos Capuchinhos.



Ainda do lado direito, destacamos o túmulo de Dom Vital (o mesmo que dá nome à praça em frente). O bispo Capuchinho viveu no século XIX e foi protagonista de um terrível conflito entre a igreja Católica e a Maçonaria. Foi preso pela Monarquia e morreu muito jovem de causas desconhecidas (acredita-se que foi envenenado). A sacristia guarda alguns objetos que pertenceram a ele.


Vamos caminhar agora para o centro da nave principal da basílica. Você irá observar dois grandes altares nas laterais. O da direita homenageia a Mater Dolorosa (Nossa Senhora) e o da esquerda faz parte da capela em homenagem a Jesus. Percebeu a presença do ombrellino papal (essa "sombrinha" amarela e vermelha)? Ele é um dos símbolos do Vaticano presente apenas nas basílicas. 


Estamos num dos lugares mais bonitos da basílica. Bem acima de nós estão os painéis dos quatro evangelistas pintados por Murillo La Greca. Há quem os considere os únicos afrescos verdadeiros em toda a América Latina. A técnica de pintura dos afrescos consistia em aplicar a massa base sobre a parede e pintá-la enquanto ainda estava molhada.


Voltando nosso olhar para o portal de entrada (lado contrário ao altar principal), podemos observar o coro-alto. Ele era usado para dar uma impressão celestial às cerimônias, pois as pessoas não percebiam de onde vinha a música. Foi desativado devido à dificuldade de acesso das pessoas que faziam parte do coral. Ainda sobre o portal de entrada, ele tem um significado de purificação dos fieis ao entrar na basílica. 

Ah, antes que eu me esqueça, as pinturas do alto da nave central não são de La Greca.


Nesta mesma visão podemos constatar no topo da basílica a existência de janelas iluminando cada altar com luz natural. Esta é uma das características que deram às construções neoclássicas a fama de "inteligentes".

Chegamos finalmente ao altar-mor. Aqui encontramos outras obras de Basarel, como citamos no início da visita. Também são dele as imagens em mármore branco de Santo Antônio e São Francisco, ...


o trono no topo do altar ...



... e o painel em baixo relevo. 



Observe também que a basílica está repleta de símbolos maçons, como o piso quadriculado e a estrela de Davi. Quando você estiver na basílica, experimente tentar encontrar um esquadro e um compasso na parte inferior do painel que acabamos de ver.

Voltando às obras de Basarel, os púlpitos e o coro-alto também são de autoria dele. Tradicionalmente o púlpito da direita era usado para pregação e o da esquerda para cobranças diversas (inclusive impostos!).


Basílica da Penha esteve fechada até 2014 quando foi devolvida aos fiéis após sete anos de restauração. Além de trazer de volta todo o seu esplendor, as obras revelaram algumas características encobertas pelo tempo, como a cor dourada da imagem de Nossa Senhora (medindo 4,5 m!) na cúpula da igreja e o painel italiano de mosaico vitrificado. Ainda está pendente a reforma das torres dos sinos.



Pra finalizar, nós não poderíamos deixar de agradecer ao nosso guia André pela competente explanação. Ele é aluno do curso de Turismo e trabalha na Basílica da Penha pelo projeto Recife Sagrado. Conversamos por quase uma hora sobre arquitetura, religião, arte, maçonaria e tantas outras coisas legais da história de Pernambuco.



Informações Úteis

Segurança

Exceto a Madre de Deus, as igrejas que fazem parte do projeto Recife Sagrado ficam localizadas numa região de comércio popular do Recife e têm um fluxo muito grande de pessoas. Convém ter cuidado com a segurança quando estiver na rua, principalmente ao expor equipamentos eletrônicos, como celulares e máquinas fotográficas.


Outras informações

Endereço: Praça Dom Vital, 169, São José, Recife-PE
Fone: (81) 3424-8500
Horário de visitação: segunda a sexta-feira das 8-17h e sábados das 8-12h
Confissões: terça a quinta-feira das 14-17h, sexta-feira das 07h às 17h30
Missa: domingos às 8h, terça às 11h30, sexta-feira às 6h, 7h30, 10h, 12h e 15h, e sábados às 16h.
Recife Sagrado: segunda a sexta-feira das 8-17h.
Se você deseja conhecer o projeto, não recomendamos que vá às sextas-feiras devido ao grande fluxo de pessoas. É o dia da Benção de São Félix.


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