sábado, 21 de janeiro de 2017

Recife Sagrado: Basílica de Nossa Senhora do Carmo

Você já imaginou uma obra demorar 80 anos para ser construída? Isso é mais do que a expectativa de vida do brasileiro. E se esta obra tiver sido feita entre os séculos XVII e XVIII, quando se vivia ainda menos? Incrível, não acha? Pois este é apenas um dos detalhes da igreja que visitaremos hoje.



Nosso passeio pelo projeto Recife Sagrado chega à principal igreja do Recife, tanto pela importância quando pela veneração dos fiéis: a BASÍLICA DE NOSSA SENHORA DO CARMO

Se a Basílica do Carmo perde em riqueza para a Capela Dourada, ganha disparado em popularidade. A devoção do recifense à sua padroeira Nossa Senhora do Carmo é tão grande que acabaram deixando Santo Antônio meio esquecido, mesmo sendo ele padroeiro da cidade e do estado de Pernambuco.

BORA PRA LÁ COMIGO?






Roteiro 

O Projeto RECIFE SAGRADO foi criado pela Prefeitura do Recife com a finalidade colocar estudantes de turismo, arquitetura e história à disposição dos visitantes em algumas das principais igrejas do Recife. Nós percorremos as igrejas do projeto e traremos para você o que cada uma tem de melhor.

Fazem parte do roteiro: Basílica de Nossa Senhora da Penha, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Basílica de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Santa Tereza D'Ávila, Capela Dourada e Igreja da Madre de Deus.


 




Basílica de Nossa Senhora do Carmo

Primeiramente é importante você saber que a Basílica do Carmo faz parte do convento da Ordem Primeira do Carmo. Ele é composto de homens e não mulheres como muita gente pensa. Soubemos que ainda há cerca de sete frades morando no mosteiro, mas eles são muito reservados e não revelam detalhes da vida em clausura.

Os primeiros frades Carmelitas chegaram ao Brasil em 1580 e se estabeleceram no Recife em 1654, apesar já de terem fundado o convento de Olinda em 1584. 

A ideia de construção de uma igreja no local começou em 1665 quando o Capitão Diogo Cavalcante Vasconcelos pediu autorização aos Carmelitas para construir às suas próprias expensas uma capela. Seu objetivo era guardar seus restos mortais e de sua esposa, irmã de Vidal de Negreiros. Ele era veterano da guerra contra os holandeses, tal qual seu cunhado. 

Apesar da autorização dos Carmelitas, a obra foi embargada por falta de aval da monarquia. Em 1674 foi solicitada a tal licença real, mas ainda se passaram mais 13 anos para a licença ser concedida. Daí foram mais 80 anos de obra até seu término em 1767.

Um dos personagens mais marcantes da história do convento foi Frei Caneca, mártir das revoluções de 1817 e 1824. Há indícios que o frade carmelita foi sepultado em algum lugar do convento, apesar dos frades negarem. Recentemente foi encontrada uma ossada no coro alto e há suspeitas que sejam do maior herói das revoluções pernambucanas.

Outro personagem importante cuja história está ligada ao mosteiro é Zumbi dos Palmaresum dos maiores símbolos da resistência negra contra a escravidão. Após a destruição do Quilombo dos Palmares e sua morte, a cabeça dele foi cortada, levada para a Prefeitura de Olinda e depois exposta no Pátio do Carmo até a sua completa decomposição. A intenção da monarquia era provar que Zumbi dos Palmares não era imortal como muitos acreditavam. História triste, não acha?

Vamos começar nossa visita pelo Pátio do Carmo, como é conhecida a área externa na frente da basílicaA igreja deveria possuir duas torres de 50 metros de altura, mas a da direita permanece inacabada. Como nas demais igrejas da época, foi utilizado arenito com óleo de baleia como liga na construção da basílica. É possível observar conchas do mar nas paredes.

O topo da fachada exibe um oratório em homenagem à Nossa Senhora do Carmo um pouco acima do brasão da Ordem, e as imagens de Santo Elias e São Elizeu mais abaixo. 




Vamos entrar?

Uma observação interessante sobre a basílica diz respeito ao seu estilo arquitetônico. Ele aponta para a fase de transição do barroco quando as igrejas passaram a ser construídas com uma nave única e corredores laterais ao invés de várias capelas em volta da nave principal. 

A igreja possui dois pavimentos e doze altares. São eles: 
- dois na sacristia (sem acesso ao público);
- um pequeno na entrada em homenagem à santa padroeira. Este altar foi construído em 1907 para que os fieis pudessem tocar na santa, visto que o principal fica num local inacessível;
- três em cada corredor lateral;
- um de cada lado do transepto;
- e o altar principal.

O altar do lado esquerdo do transepto homenageia o Santíssimo Sacramento. Observe a luz vermelha à frente do altar. Ela significa que Jesus está vivo!


Do outro lado do transepto encontramos o altar dedicado ao Bom Jesus e a São José. A quantidade de ouro é impressionante!



Observemos agora os altares localizados nos corredores. É visível a diferença de quantidade de ouro entre os lados esquerdo e direito. Isto deve-se à mistura de fases do barroco (foram 80 anos de construção, lembra?). Há muito mais ouro no barroco tradicional do que na sua fase tardia. Os detalhes semelhantes ao mármore foram fabricados com uma técnica que imita o mármore.

Os altares estão em processo de restauração pelo IPHAN. Vale dizer que o ouro reposto é bancado pela Ordem através de doações dos fiéis e não pelo governo.




O altar em homenagem à sagrada família é meu preferido.





Apesar do estado de conservação bem ruim, também chama à nossa atenção a pintura no teto em madeira. Ele retrata uma passagem bíblica do livro de Reis na qual Santo Elias sobe aos céus numa carruagem de fogo.



Chegamos agora à parte mais importante da visita: o altar-mor!



Deslumbrante, não acha? O conjunto foi feito em talha dourada com iluminação solar (a parte azul foi refeita em alvenaria na última reforma do século XX). A imagem de Nossa Senhora do Carmo possui tamanho natural. No dia da padroeira, 16/7, ela é adornada com um escapulário de ouro e uma coroa de diamantes, presente das senhoras abastadas na época da construção.

Outro destaque são as cadeiras laterais em jacarandá reservadas para os bispos e mais recentemente ao coral. Na época de D. João VI o jacarandá ficou conhecido como "madeira de lei" depois do decreto que restringia à coroa o uso de algumas madeiras. Elas são originais.

Se você observar com mais cuidado as laterais inferiores do altar, irá notar duas portas bem discretas. Elas serviam para permitir que os sacerdotes acessassem discretamente as mesas da credência (servem para preparação das cerimônias). Assim não teriam que passar pela entrada do altar na vista de todos.

Como nas igrejas de sua época, os corredores laterais do altar principal guardam jazigos de famílias importantes. Quanto mais perto do altar, mais abastada era a família. Era a forma que eles faziam para ficar perto de Deus após a morte.

O piso da igreja também servia para sepultar as pessoas até a sua substituição pela cerâmica atual. A obra foi feita no século XIX por Francisco do Rego Barros, mais conhecido como Conde da Boa Vista. Foi nesta mesma época que ele inaugurou o Cemitério de Santo Amaro, onde passaram a ser enterrados os recifenses.

Terminamos a visita na lojinha da Basílica, infelizmente colocada num salão com azulejos portugueses retratando passagens da bíblia. Uma pena, pois o espaço deveria ser mais valorizado, além de por em risco esse patrimônio da comunidade.




Informações Importantes

Segurança

Bairro de Santo Antônio foi um dos mais impactados pela grande reforma do início do século XX. Sob o pretexto de trazer a modernidade com amplas avenidas e abrir o acesso para trânsito de veículos, acabou por desfigurar boa parte do patrimônio histórico do centro da cidade.

Atualmente o bairro concentra a maior parte do comércio popular da capital pernambucana, portanto com um intenso fluxo de pessoas. Porém, fica bastante vazio fora do horário comercial e logicamente não é recomendado à noite, finais de semana e feriados. 

Não é comum problemas com violência explícita nas principais avenidas, como assaltos à mão armada e coisas do gênero. Entretanto, para não chamar demasiadamente a atenção, convém ter cuidado ao expor celulares, máquinas fotográficas e outros equipamentos.


Outras informações


Quem nos acompanhou durante nossa visita foi o Edson Neto. Ele ainda é estudante de história, mas demonstra mais conhecimento e didática do que muitos profissionais. Foi um prazer poder aprender com ele parte da história do Recife.


EndereçoPraça Nossa Senhora do Carmo, av. Dantas Barreto s/n, bairro de Santo Antônio
Telefone: (81) 3224-3174
Horário: segunda a sexta das 08-12h e 13-17h
Missas:
domingos às 11hs
segundas às 07hs e 08hs
terça a sexta às 07hs, 08hs e 12hs e 18hs
sábados às 07hs
A concorrida missa do santíssimo é realizada toda quinta-feira às 12hs.
Data comemorativa: 16 de julho.




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